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O GÊNIO E A ARTE
   ( DO LIVRO DE FRANCISCO LOBO DA COSTA)


_Quem bate à porta do pobre?
_Abre, não tenhas receio,
Eu venho de fome cheio,
Quero pedir-vos um pão...
Andei faminto e descalço
Pelas ruas da cidade!
Ai, Senhor! a caridade
Já não vive entre nós, não!

Ao rico- pedi abrigo;
À pátria- pedi amparo...
Foi em vão; paguei bem caro
As minhas crenças sem par!
Do que valera no estudo
Arrastar os curtos anos?
_Ser pastos dos desenganos,
De abismos em abismos rolar

_Entra; meu albergue é pobre,
Mas há fogo sobre esta lareira;
Eu durmo sobre esta esteira...
Pode dormir outro mais,.
Enxuga, pois, teus vestidos..
Tenho um só pão...mais reparte...
Tú és o gênio, e eu -a arte.
Ambos nascemos iguais.




VELHA FACA    ( site página do gaúcho)
Aparício Silva Rillo

Um palmo e pico de aço,
rude e glorioso pedaço
da espada de um general.
Cabo de prata estrangeira
-Velha faca brigadeira
que nunca me deixou mal.

Nesse tempo eu era moço,
não tinha o sangue tão grosso
nem a memória tão fraca.
Índio gaudério sem marca
era maior que um monarca
quando empunhava essa faca.

Mas não era compra-briga,
desses que enchem a barriga
em bochinchos de galpão.
Mui amigo do sossego
não arriscava o pelego
em "rolos" sem precisão.

Mas quando lá volta e meia
me entreverava em peleia
por honra ou obrigação,
afrontava qualquer risco
e essa faca era um corisco
brigando na minha mão.

Sei que há quem ria disso:
_a faca tinha um feitiço,
coisa botada, sei lá!
Se escapava da bainha
e ia brigar sozinha
se eu deixasse ela brigar!

Mas Dom Tempo barbaçudo
que dá sumiço em tudo,
Coisa viva e coisa morta,
foi-se chegando ronceiro,
cruzou sem pressa o terreiro,
passou depois pela porta.

Quantas vezes já nem lembro,
vi enfeitar-se setembro
com as flores roxas do ipé.
Do moço de antigamente
resta este trapo de gente
que mal e mal fica em pé...

E a velha faca amigaça
me acompanhou na desgraça,
me aparceirou na miséria.
_Extraviada da bainha,
ainda lá pela cozinha
nas mãos da negra Quitéria.

 

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